Apelo de amor desesperado
Nessa terça-feira de sal, de terra, tenho meu estomago cheio de seixos de rio, gelados, enquanto escrevo. Eu passei pelos dias do Sol e da Lua tentando manter seu gosto aceso no céu da minha boca, roçando a língua, lembrando de uma ponta de gelo nos seus aparelhos dentários. Um pouco de amargo da cerveja, e o sal da comida e da pele. Essa terça-feira de carvão, pedras opacas de negrume no meu peito.
Caminhei meu domingo em devaneios, te lembrando, tentando prender minhas memórias olfativas na ponta da língua, a insistência do seu gosto. Gula, muita gula. Culpa por ter devorado tal sobremesa com tanta pressa, sem degustá-la como se deve: talvez coberta de leite, ou coberta de lençóis. Dessa fome voraz que fizeste florescer em mim fiquei entorpecido e exausto, por que não percebi que outra fome, a dos sais minerais e das vitaminas aportava por cá. Quero tanto deitar contigo a mesa e me servir novamente em fartas garfadas dos pequenos dedos de tua mão, com mordidas das maçãs do rosto. Ah! E os lábios de cereja, tanto os cobicei, como a raposa das fábulas… Tanto que nem sabes, minha bela árvore, teus ramos nem suspeitam há quanto tempo os olhava e ansiava cravar-lhes os dentes, e novamente os faço, apreciando no patamar onírico dos que sonham na luz do dia, não só sua cor de fruta madura como a consistência da pele fina entre os dentes.
Minha ave de madeira, macieira esguia.
Caminhei minha segunda-feira, com o coração ao mesmo tempo leve e pesado, sem medida, metros, quilos ou newtons. Apenas o coração a passos rápidos, ansioso por você; a cada telefonema incompleto, a cada voz de gravação. Já esgotado, vazio e seco acabei no bar…
::::: sob efeito de Alceu Valença – Sol e Chuva
